O Mapa Fantasma: cartografia e pesquisa científica

No trecho a seguir, Johnson desevolve um pouco melhor o tema do seu mais recente livro.

Gostaria de destacar dois aspectos que eu gostei bastante neste livro.

a) o primeiro (já era esperado) diz respeito ao uso de informação local e o cruzamento de dados para construção de representações visuais para gerar novos conhecimentos. Na sua narrativa, o autor apresenta um problema de saúde pública que ocorreu em Londres na metade do século XIX, onde uma epidemia de cólera matou centenas de pessoas num curtíssimo intervalo de tempo. Naquela ocasião, dois indivíduos, a partir do profundo conhecimento local da região de Soho em Londres, venceram a batalha contra a doença por meio da identificação de padrões de contágio entre os moradores. Usaram, para isso, uma base de dados pública e, a partir de uma hipótese até então revolucionária que defendia a transmissão do cólera pela água, cruzaram esses dados com um mapa para criar uma representação visual que sustentasse o argumento proposto. O caso acabou por se tornar uma referência clássica nos estudos do Design da Informação, e o mapa proposto por John Snow (o cientista que liderou a pesquisa) inaugurou uma nova forma de investigação científica, onde o uso de mapas, gráficos e diagramas se tornou poderoso instrumento de descoberta.

Mapa de Soho utilizado pelo Dr. John Snow para identificar padroes de contágio do cólera em Londres

Trazendo a questão pro lado da minha pesquisa de mestrado, (aham… preciso fazer o Jabá) trata-se de um excelente exemplo que confirma a hipótese que proponho: o uso de representções visuais (mais especificamente de mapas) é um instrumento de descoberta heurística e favorece a emergência de novos conhecimentos. Em tempos de Google Maps e API’s, nada mais oportuno do que discutir dados públicos e suas aplicações que utilizam a internet como plataforma de divulgação.

b) O que também me empolgou no livro (e que eu não esperava) foi o convencimento do valor do método científico de pesquisa, questionamento de paradigmas e subversão de valores consolidados. O conhecimento humano e o progresso das civilizações é diretamente proporcional à capacidade mental de cada um de nós de duvidar de conceitos pré-estabelecidos pela tradição ou pelo senso-comum. O raciocínio crítico, no sentido de estabelecer hipóteses a partir de um problema e investigá-las na sua fonte, é o procedimento básico de todo bom pesquisador. Já falei isso aqui algum tempo atrás, mas gostaria de lembrar: o mais legal do mestrado nem é o tema da pesquisa em si, mas o aprender a pesquisar, a amadurecimento do olhar investigativo para as questões do cotidiano.

JOHNSON, Steven. O Mapa Fantasma. Como a luta de dois homens contra o cólera mudou o destino de nossas metrópoles. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

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Steven Johnson no Roda Viva

É uma pena que grande parte das perguntas tenham ficado restritas somente aos games. Gostaria de ter escutado mais sobre os sistemas emergentes, a complexidade, o uso das redes na construção de softwares mais inteligentes, visualização de dados e as questões urbanas, que ele trata muito nos livros. Segue um trecho interessante.

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Cibercepção

Um trecho interessante de Roy Ascott, de 1994. (apesar do exagero nos neologismos…)

“A cibercepção envolve uma convergência de processos conceituais e perceptivos em que a conectividade de redes telemáticas desempenha um papel formativo. A percepção é estar ciente dos elementos ambientais através das sensações físicas. A cibernet, a soma de todos os sistemas de mediação computadorizada interativa e de redes telemáticas do mundo, é parte de nosso aparelho sensorial. Redefine nosso corpo individual da mesma maneira que conecta todos os nossos corpos em um todo planetário. A percepção é uma sensação física interpretada à luz da experiência. A experiência é agora telematicamente compartilhada: a tecnologia das telecomunicações computadorizadas permite que mudemos dentro e fora de cada um de nós a consciência e a telepresença no fluxo mediático global. Por concepção entendemos os processos de origem, formação ou de compreensão de idéias. As idéias vêm das interações e das negociações das mentes. (…) Estamos vendo o aumento da nossa capacidade de pensar e de conceitualizar, e a ampliação e o refinamento de nossos sentidos: uma conceitualização mais rica e uma percepção mais total tanto dentro quanto além de nossas limitações anteriores de ver, pensar e construir. (…)

Até agora pensamos e vimos coisas de uma maneira linear, uma coisa depois da outra, uma coisa escondida atrás de outra, levando a esta ou àquela finalidade, e pelo caminho dividindo o mundo em categorias e classes de coisas: objetos com limites impermeáveis, superfícies com interiores impenetráveis, simplicidades superficiais de visão que ignoravam as complexidades infinitas. Mas a cibercepção significa incorporar o senso do todo, adquirir uma visão panorâmica dos fatos como o olhar de um pássaro, a visão da Terra por parte do astronauta, a visão dos sistemas do cibernauta. (…) A cibercepção é a antítese da visão do túnel ou do pensamento linear. É uma percepção simultânea de uma multiplicidade de pontos de vista, uma extensão em todas as dimensões do pensamento associativo, um reconhecimento da transitoriedade de todas as hipóteses, a relatividade de todo o conhecimento, a impermanência de toda percepção. ”

ASCOTT, Roy. A Arquitetura da cibercepção. IN: LEÃO, Lucia (org.). Interlab: labirintos do pensamento contemporâneo. São Paulo: Iluminuras, 2002.

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A topologia da internet

Internet Topographic Map, 1983

Internet Topographic Map, 1983

Internet Map, 1987

Internet Map, 1987

Berners-Lee's diagram describing 'hypertext'

Berners-Lee’s diagram describing ‘hypertext’

Computer History Museum

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Computer networks

Cover of COMPUTER Magazine from September 1979

Cover of COMPUTER Magazine from September 1979

Computer History Museum

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A questão da identidade pós-moderna

Adotei um novo avatar, versão ciberespacial. Veja ao lado.

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As cidades e as redes

Este post aborda uma breve reflexão sobre três aspectos:

a) a crescente aglomeração de pessoas nas grandes metrópoles;
b) a aparente contradição entre essa tendência e as possibilidades de trabalho à distância proporcionadas pelas tecnologias de informação em rede;
c) Afinal, por que diabos fui sair do aconchego do lar materno, cercado de reagalias e iguarias (quem conhece o rango da D. Leila sabe o que estou dizendo) e me mudei para São Paulo.

Vamos começar pelo CASTELLS (1999), com sua visão mais econômica e influenciada pelos movimentos de globalização à época do seu Sociedade em Rede.

As megacidades – maiores aglomerações urbanas do mundo, segundo a ONU – em especial, se tornam palco de contradições: articulam a economia global, integrando as redes de informação. Por outro lado, abrigam outros segmentos da população em áreas negligenciadas pelas tecnologias de comunicação e ao conhecimento. Se por um lado, estão conectadas a centros globais externos, internamente evidenciam a ruptura de estruturas sociais. Ainda sim, as megacidades continuarão a crescer, pois se constituem como pólos de desenvolvimento econômico, de inovação cultural e política e de conexão às redes globais. Em sua análise da influência das tecnologias da informação no espaço urbano, também coloca que, embora os recursos de telecomunicações e transações à distância estejam proporcionando novas possibilidades econômicas, as aglomerações e a proximidade física ainda são realidade. Ou seja, o trabalho ainda é presencial e não será substituído pelo trabalho à distância num curto prazo de tempo. O problema dos transportes é crescente, uma vez que requer maior mobilidade física da força de trabalho entre centros e periferia, incentivada pela compressão temporal das empresas em rede (muito mais atividades são realizadas numa mesma jornada de trabalho). O comércio eletrônico não elimina as grandes redes de varejo físicas. Pelo contrário, hipermercados e centros de compra se expandem cada vez mais, ao mesmo tempo em que inauguram suas versões também para a Internet. Idem para os complexos de saúde e as instituições de ensino, que passam a combinar funções locais e sistemas on-line.

Agora, o nosso amigo JOHNSON (2008), aquele mesmo que veio ao Campus Party e que fui ver, na primeira fila. (o cara é bom hein, até comprei o livro novo na hora, só para trocar uma idéia pessoalmente com ele e ganhar uma dedicatória)

“A ironia, é claro, é que as redes digitais supostamente deveriam tornar as cidades menos atrativas, não mais. O poder da telecomunicação e da conectividade instantânea tornaria a idéia de núcleos urbanos densamente povoados tão obsoleta quanto as cidades muradas da Idade Média. Por que as pessoas se espremeriam em agressivos meios superpovoados quando poderiam de uma forma igualmente simples trabalhar a distância em suas próprias casas? Porém, como se comprovou, muitas pessoas, na verdade, apreciam a densidade dos meios urbanos, precisamente por oferecer a densidade de confeitarias e cinemas de arte. À medida que as tecnologias aumentam nossa capacidade de encontrar esses nichos de interesse, esse tipo de densidade simplesmente se tornará cada vez mais atrativo. Esses mapas amadores oferecem um antídoto contra a grandiosidade, a complexidade e a intimidação das grandes cidades. Fazem com que todos se sintam em casa, precisamente porque se baseiam no conhecimento dos verdadeiros moradores da região.(…)

Há um motivo para que as pessoas mais ricas do mundo – que ao escolher o local no qual desejam constituir seus lares, têm opções praticamente infinitas – escolham reiteradamente viver nas áreas mais densamente povoadas do planeta. Em última instância, vivem nesses locais pelos mesmos motivos que os favelados de São Paulo: porque é na cidade que as coisas acontecem. As cidades são centros de oportunidades, tolerância, produção de riqueza, redes sociais, saúde, controle populacional e criatividade. Embora, é claro, ao longo das próximas décadas, a Internet e seus sucedâneos continuem a exportar alguns desses valores para as comunidades rurais, sem dúvida continuarão igualmente a reforçar a experiência de vida urbana. Os transeuntes nas calçadas se beneficiam tanto, se não mais, da Internet quanto os fazendeiros.”

(Sobre os mapas que ele se referiu no texto, será tema do próximo post.)

E então, como vai a minha vida em São Paulo? Bom, por exemplo, descobri uma tal de Starbucks que está me consumindo uma grana excessiva. Mas, como diriam os críticos, “relaxa, deixa de ser munheca-de-samambaia e aproveita o que a cidade tem de melhor”.

CASTELLS, M. A Sociedade em Rede. A era da informação: economia, sociedade e cultura. 6ª. Edição. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

JOHNSON, Steven. O Mapa Fantasma. Como a luta de dois homens contra o cólera mudou o destino de nossas metrópoles. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

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NYTE – New York talk exchange

NYTE

Globe encounters

In the Information Age, the flow of IP (Internet Protocol) data between locations is nearly ubiquitous. Globe Encounters visualizes in real time the volumes of Internet data flowing between New York and cities around the world. The size of the glow on a particular city location corresponds to the amount of IP traffic flowing between that place and New York City. A greater glow implies a greater IP flow.

Tá em exibição:

MoMA The Museum of Modern Art
Design and Elastic Mind
February 24th – May 12th 2008

http://senseable.mit.edu/nyte/index.html 

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History of evil

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Topoware

Topoware

http://www.topoware.org

Dica do Thiago Máximo.

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